Evidência

Letramento em saúde corporativo: o que a revisão sistemática de Hochmuth e Sørensen diz para o RH

A primeira revisão sistemática sobre como empresas aplicam o letramento em saúde encontrou cinco pilares e um alerta. O que a ciência já sabe, o que ainda não sabe, e seis traduções práticas para quem cuida de gente.

17 de out. de 2026 · 7 min de leitura · Calendário Colorido

Quando o RH apresenta um programa de educação em saúde ao comitê, a pergunta que trava a aprovação costuma ser: "isso tem base científica ou é bem-estar de palestra?" Este artigo responde com o que existe de mais sólido no tema, lido na íntegra, com o que ele sustenta e o que ele não sustenta.

O conceito, antes do artigo

Letramento em saúde (health literacy) é, na definição mais usada no mundo, "o conhecimento, a motivação e as competências das pessoas para acessar, entender, avaliar e aplicar informação de saúde, de modo a fazer julgamentos e tomar decisões no dia a dia sobre cuidado, prevenção e promoção da saúde". A definição vem da revisão de Sørensen e colaboradores (2012), que integrou 17 definições e 12 modelos conceituais num só, e virou a base do consórcio europeu de pesquisa sobre o tema.

O tamanho do problema apareceu três anos depois, no primeiro inquérito comparativo europeu (HLS-EU, 2015): em oito países, quase metade dos adultos (47%) tinha letramento em saúde limitado, somando os níveis "insuficiente" e "problemático". Não existe inquérito nacional equivalente para a população trabalhadora brasileira; na nossa busca, os estudos brasileiros medem letramento em pacientes com doença crônica, não em empresas.

O artigo: a primeira revisão sobre empresas

Em 2021, Natascha Hochmuth e Kristine Sørensen publicaram "Corporate Application of Health Literacy" na revista Health Literacy Research and Practice. É uma revisão sistemática (protocolo PRISMA) que fez a pergunta certa para o RH: como as empresas estão aplicando, na prática, o conceito de letramento em saúde?

A busca, em três bases, encontrou 346 resumos; 20 estudos entraram na análise final. As empresas vinham de Austrália, Canadá, Alemanha e Irã, em setores como tecnologia, governo, saúde, transporte de carga e pequenos negócios. A análise temática organizou o que existe em cinco pilares.

1. Conceito

A maioria dos estudos usou definições gerais de letramento em saúde (OMS e Sørensen). Um subgrupo usou o conceito de letramento em saúde mental: reconhecer sinais, saber procurar ajuda, saber ajudar um colega.

2. Medição

Existem instrumentos feitos para o trabalho. A revisão cita a Health Literacy Scale for Workers (HELSW), curta e orientada à saúde ocupacional, e uma ferramenta de letramento em saúde mental baseada em vinhetas, feita para o contexto de trabalho. O ponto que o RH costuma esquecer: a medição serve para avaliar o programa ao longo do tempo, não só para diagnosticar no início.

3. Estratégia

Letramento em saúde só se sustenta quando entra na estratégia da empresa e tem buy-in da gestão, com resultados esperados no longo prazo, não no trimestre. A gestão fornece recursos (infraestrutura, treinadores, ferramentas) e funciona como modelo. As políticas precisam garantir que a informação de saúde seja disponível, alcançável e compreensível, e isso exige conhecer as necessidades do público, o que a revisão chama de endereçar corretamente o grupo-alvo.

4. Intervenções

Aqui está o que mais interessa. Os critérios de sucesso identificados para promover letramento em saúde no trabalho foram: ambiente de apoio, aprendizagem informal embutida nos processos de trabalho, conceitos orientados à ação, e adaptação ao público: às suas necessidades, à sua mentalidade e ao seu nível inicial de letramento. Também aparecem uma intervenção de estilo de vida com health coach e vários programas de letramento em saúde mental, incluindo a recomendação de aumentar a competência de comunicação dos gestores.

5. Treinamento

Os resultados são desiguais, e a revisão não esconde isso. Um treinamento presencial em sala de aula para gestores não mostrou efeito sobre o letramento em saúde. Já treinamentos online para gestores pareceram se adaptar melhor à rotina deles. O destaque é o Mental Health First Aid (primeiros socorros em saúde mental): os participantes mostraram mais confiança para ajudar outros, maior chance de orientar alguém a buscar ajuda profissional e menos atitudes estigmatizantes. A recomendação é que o treinamento seja baseado em contato, com exemplos relevantes ao contexto, e tenha apoio da direção.

O alerta que vem junto

As autoras são diretas: a aplicação do letramento em saúde pelas empresas "está na infância". Há mais estudos sobre saúde mental do que sobre letramento em saúde geral no trabalho; poucos dos modelos teóricos foram testados; os estudos vêm quase todos de países desenvolvidos; e muitas empresas que fazem algo não publicam. A conclusão prática: para durar, a intervenção precisa elevar o letramento como parte de uma cultura de saúde construída, e não de incentivos pontuais de curto prazo.

Uma segunda revisão do mesmo ano reforça o quadro. Ehmann, Ög, Rieger e Wrzus (2021), numa revisão de escopo que partiu de 4.345 registros, propõem o conceito de letramento em saúde relacionado ao trabalho: o conhecimento do trabalhador sobre os próprios riscos, as próprias condições de trabalho e o apoio disponível dentro e fora da empresa. Os autores observam que as intervenções com resultado quantitativo foram treinamentos em grupo, oficinas e ações educativas; que não existe ainda um instrumento padronizado para medir letramento em saúde no ambiente de trabalho em geral; e que medidas ligadas ao próprio trabalho tendem a ter mais aceitação do que medidas de saúde genérica.

Seis traduções para o RH brasileiro

  1. Meça antes e meça depois. Um questionário curto na adesão e outro ao fim do ano. Sem isso, o programa não tem como provar nada ao comitê.
  2. Adapte ao público, não ao calendário. O critério mais repetido na literatura é a adaptação às necessidades, à mentalidade e ao nível inicial de cada grupo. Em português de RH: recorte por idade, sexo, função, condição de saúde. A campanha igual para todos é exatamente o que a evidência diz que não funciona.
  3. Embuta no processo, não no evento. "Aprendizagem informal embutida nos processos de trabalho" é a descrição científica de uma mensagem curta que chega na rotina da pessoa, não de uma palestra no auditório. Nossas 15 dinâmicas que não são palestra seguem essa lógica.
  4. Comece pela saúde mental dos gestores. É onde a evidência é mais forte: treinar quem lidera a reconhecer sinais e encaminhar. Veja o treino de 30 minutos nas dinâmicas de saúde mental.
  5. Leve a gestão junto, por escrito. A revisão é clara: sem buy-in da direção, com recurso e exemplo, o programa não passa do segundo ano.
  6. Trate como cultura, com horizonte de anos. Incentivo pontual (o brinde do Outubro Rosa) é o oposto do que a literatura recomenda.

O que este artigo não permite dizer

A revisão tem 20 estudos, heterogêneos, sem meta-análise. Ela sustenta que o conceito pode ser integrado, medido e aplicado na empresa, e aponta os critérios que apareceram nos estudos que funcionaram. Ela não sustenta frases como "programa de letramento reduz sinistralidade em X%" ou "diminui absenteísmo". Quem prometer isso ao seu comitê está indo além da evidência.

Como isso se conecta com o que fazemos

O Calendário Colorido foi desenhado sobre os três critérios que a literatura mais repete: adaptação ao perfil (a jornada de cada pessoa é diferente), aprendizagem embutida na rotina (mensagens curtas, no canal que a pessoa já lê, no horário que ela escolheu) e medição ao longo do tempo (adesão, leitura e lembretes aceitos, agregados por mês). Não é uma prova de resultado; é um desenho alinhado com o que a ciência recomenda testar. Veja a jornada de exemplo ou peça uma demonstração.

Fontes

Segundo artigos recuperados do PubMed:

  • Hochmuth N, Sørensen K. Corporate Application of Health Literacy. Health Literacy Research and Practice, 2021. DOI 10.3928/24748307-20210710-01. Texto integral lido.
  • Ehmann AT, Ög E, Rieger MA, Wrzus C. Work-Related Health Literacy: A Scoping Review to Clarify the Concept. International Journal of Environmental Research and Public Health, 2021. DOI 10.3390/ijerph18199945.
  • Sørensen K, Van den Broucke S, Fullam J, et al. Health literacy and public health: a systematic review and integration of definitions and models. BMC Public Health, 2012. DOI 10.1186/1471-2458-12-80.
  • Sørensen K, Pelikan JM, Röthlin F, et al. Health literacy in Europe: comparative results of the European health literacy survey (HLS-EU). European Journal of Public Health, 2015. DOI 10.1093/eurpub/ckv043.

Conteúdo educativo. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento.

Quer ver isso rodando na sua empresa? Mostramos a jornada montada para o perfil do seu time e o desenho do projeto.

Pedir demonstração